"SNS" Holandês

Das coisas que mais me custa, é ver o meu filho doente. Seja em Portugal ou na China, o sentimento é exatamente o mesmo, o de impotência. 
O Francisco, como qualquer criança, é um miúdo ativo e bastante bem disposto, detetar que está doente, não é fácil. 
Quando tinha 4 meses, fez uma bronquiolite e uma otite, ao mesmo tempo, e só demos por isso porque o sentimos quente e obviamente também notámos que lhe custava mais a respirar. No entanto, no que diz respeito à boa disposição, o padrão mantinha-se.

Na semana passada, foi mais um desses casos, estávamos os 3 na sala a brincar, quando por acaso o Bruno pôs-lhe a mão na testa e notou que estava quente. 39,2C era o que o termómetro marcava. Logo na primeira semana de estarmos definitivamente em Amesterdão, só para "abrir a pestana".
Supositório "para cima" vamos esperar que a febre baixe, caso contrário vamos às urgências, para isso é que somos obrigados a ter seguro de saúde nesta terra.
De um momento para o outro começou a revirar os olhos e a puxar o vómito.
- Ok, vamos já com ele às urgências porque isto não é mesmo nada normal. - dissemos.
Hospital a 3 minutos a pé de casa, lá fomos nós.
Bingo, não tem urgências pediátricas desde há um ano. Hospital mais próximo que serve as nossas necessidades, fica a 10 minutos. Chamámos o "nosso amigo" Uber e lá fomos.
Entretanto o miúdo parecia estar a voltar novamente "à vida", provavelmente a febre estaria a baixar. Qualquer das maneiras quando chegássemos ao hospital, o médico de certo que o iria observar, pensámos nós.
Já no hospital e 20 minutos depois de espera para a triagem, com a sala das urgências vazia, lá fomos chamados.
O Francisco entrou no consultório a andar, mais uma vez, como qualquer miúdo que já anda, é quase impossível mantê-lo no carrinho quieto e sossegado tal e qual um cão de louça.
Observação imediata da médica: "mas ele está bem, porque vieram às urgências?".
Oh meu Deus, esta senhora é vidente, bastou olhar para ele para fazer todo um diagnóstico. Vou pedir-lhe o número do euromilhões, de certeza que acerta.
- Mas ele está sempre bem, estando doente ou não. - disse-lhe.
Médica: Pois, mas ele anda bem, tem boa cor, não faz sentido virem às urgências.
Ok, mas já que aqui estamos, pode observá-lo? Pensei eu.
Tentei explicar-lhe tudo aquilo que escrevi em cima, mas a médica foi peremptória. "Se não está apático e visivelmente a morrer, não faz sentido observá-lo." Resumindo por miúdos, "adeus e um queijo que tenho mais que fazer." Ele que beba muita água, dizia ela.
No meio disto, deu tempo para ouvir um sermão sobre como deveria ter sido todo o procedimento antes de lá termos ido, que não é de todo descabido, mas para quem é novo e ainda em fase de adaptação, é normal o desconhecimento.
Ou seja, antes de nos dirigirmos às urgências seja porque motivo for, a não ser que estejamos visivelmente às portas da morte, devemos SEMPRE ligar primeiro para a saúde 24 de cá, só depois é que nos dizem se vai um médico a casa, se nos medicam por telefone ou se devemos ir então para o hospital.
Compreendo, aceito (que remédio) e irei seguir no futuro. A única coisa que não compreendo, é que já que estamos no hospital e já que tenho uma médica a olhar para mim, em vez de me dar um sermão por ter sido uma mãe inconsciente, porque se assustou com o estado do filho, podia agarrar no termómetro e outros que tais para o ver, ou estarei a pedir muito?!?
Sim, estava a pedir muito. Ainda ouvimos um "mas agora tenho que o ver porque vocês estão aqui". 
Ainda assim, mesmo com a "boca" que mandou, não o viu na mesma. 
Nada a fazer, o miúdo estava perfeito, segundo ela, voltámos então para casa.

1:30h da manhã, o Francisco, que já estava a dormir, começa a berrar, medimos a temperatura e constatamos uns redondos 40C. Ligamos para a linha de urgências, que demoraram cerca de 10 minutos a atender (ótimo para quem está efetivamente a morrer) e depois de uma série de perguntas de despiste, mandaram-nos para as urgências do hospital, mas desta vez com marcação, ou seja, já estariam à nossa espera.
Com isto tudo, chegámos ao hospital às 2:30h da manhã, como tínhamos marcação e estavam avisados que a consulta seria para um bebé de 18 meses, a espera não não iria ser grande. Pensámos nós, e pensámos...MAL!!
Estavam 3 pessoas na sala, sendo que uma delas estava toda ensanguentada na cara, desentendimentos noturnos muito provavelmente, entre o cuspir sangue e gemidos de dor, teve que implorar 3 vezes para o deixarem entrar para observação.
Fantástico, aquilo ia correr bem...
45 minutos passados, as 3 pessoas que estavam na sala já tinham sido atendidas e inclusive já se tinham ido embora, e nós com um miúdo de 18 meses doente, continuávamos à espera de ser chamados. Já a entrar em transe, o Francisco começa a fazer um berreiro tal, normal, e já nada o acalmava. Esteve nisto mais de 10 minutos, até que apareceu uma alminha que provavelmente o choro já a estava incomodar, entrou na sala de espera, olhou para nós e disse "vá, entrem lá".
Aqui já estávamos, literalmente, os 3 a bufar.
Mais uma vez, o Kiko entra no consultório pelo seu próprio pé.
Primeira reação do médico depois de lhe explicarmos a situação:
- Mas ele está bem, anda, "fala", não está com ar apático. Não tem nada. As febres são mais que normais.
MAS O QUE É QUE SE PASSA AQUI????? Têm todos o mesmo discurso!!
E o médico não se calava, até que o Bruno se passou e praticamente o obrigou a observar o miúdo. Não iríamos para casa, uma vez mais, de "mãos a abanar".
Posso dizer, que nunca vi ninguém tão bruto e tão contrariado a observar uma criança. Agarrou no Kiko, deitou-o no maca, e começou a observá-lo, ouvidos, garganta, febre, pulmões, testículos, e no meio disto o miúdo estava num pranto incontrolável e o médico aos berros achando que o iria acalmar só dizia HELLO, HELLO, HELLO, HELLO... Não vos consigo explicar exatamente o meu estado de nervos naquela altura, a minha cabeça já estava a entrar em tilt e eu acho que numa mera fração de segundos, consegui raciocinar e não lhe atirar com uma cadeira à cabeça. Acho que mais 5 segundos daquilo e algo de grave se iria passar naquele hospital. O que vale é que também já estávamos no sitio certo, caso alguma "tragédia" inesperadamente acontecesse..
15 minutos depois, fomos mandados embora com a mesma observação da médica anterior "ele não tem nada, beba muita água que isso passa" (a água aqui deve ser baratíssima, só pode)
Ainda houve tempo para nos dizer uma pérola "se ele estivesse apático era uma coisa, agora não estando, até podia estar há uma semana com 41C de febre que eu não o via na mesma."
Estávamos a adorar toda esta experiência, num país desconhecido, onde TODA A GENTE é obrigada a ter seguro de saúde e reforço que é dos mais caros da europa. Já para não falar, no mais importante, que era não sabermos ainda o que é que o miúdo tinha.
Com isto, entrou o fim de semana, o Kiko já com febres mais baixas, ainda queixoso de alguma coisa, mas sem nada podermos fazer.
Segunda-feira, fomos a uma clínica de saúde na nossa área de residência, para nos inscrevermos e nos atribuírem um médico de família, procedimento obrigatório também. Quando lá estávamos, uma médica passou por nós e deu-nos as boas vindas, aproveitei o momento e com toda a lata, comecei a expor todo histórico médico do Francisco dos últimos 4 dias.
Bem, posso dizer, que o atendimento passou do 8 para os 80000000, nada a ver mesmo, uma médica super atenciosa, cheia de cuidados, que se prontificou logo a observá-lo, com todo o cuidado possível. E não é que detetou uma otite??!?!? E o outro atrasado, desculpem-me os mais sensíveis, que no meio do HELLO e de lhe ver os ouvidos, disse que ele não tinha nada!!!
Bem podia o miúdo ficar a beber água eternamente, até quem sabe, deixar de ouvir, mas ao menos ficava hidratado.
Agora sim, diagnosticado e medicado, afinal tudo tinha razão de ser.
Mas é como o outro diz "estamos sempre a aprender"..
E pronto, com isto, o Franciso irá melhorar mais depressa, certamente.

Desculpem-se este longo texto, mas foi só um desabafo de alguém que ainda se está a adaptar a toda esta aventura.
Our little prince 

Comentários

  1. Não podias fazer queixa desse médico depois do relatório da outra médica?
    Eu até fiquei nervosa de ler, fará vocês pais! Dava-me uma coisa!

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    Respostas
    1. Não, infelizmente não. Pelo que já percebemos, só devemos recorrer ao hospital em caso de emergência, e com isto quero dizer, se estivermos mesmo a morrer, só aí é que nos ligam e nos tratam bem. Por isso, é que fomos tão mal tratados. Mas acredita, que era a vontade que me dava. Esse dia foi horrível, fiquei com uma camada de nervos que nem consigo descrever bem. Felizmente, a história acabou bem.

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